Parados até que a vida nos separe

Já faz mais de um mês que eu não passo por aqui. Já faz mais de um mês que eu não escrevo e, bem mais que isso em que vivo numa constante espera pela própria vida. Já faz mais de um mês que eu não foco na família e nem em mim mesma. Meses e talvez anos em que planejo a vida dos sonhos sem vivê-la de fato.


Parece que a minha parada só aumentou com a pandemia. Eu estava mesmo esperando a desculpa ideal para dizer que eu não faço o que quero porque não dá agora, porque estamos em um período difícil. E, bom, realmente estamos e ele só aumenta a minha ansiedade. Mas esse marasmo já existia bem antes. Existia quando eu inseria os desejos das pessoas afrente do meu, existia quando eu tinha milhões de ideias e não colocava em prática nenhuma por não ter coragem, existia quando eu escolhi seguir o caminho da sociedade em vez daquele que mais me cabia.


Essa parada de vida enlouquece. Te faz pensar o que fazer agora e não achar algo que te complete, mesmo havendo um mundo de possibilidades. Te faz ficar perdida no que quer. Te faz planejar tomar iniciativa no dia seguinte, mas continuar deitada olhando o celular, ou até mesmo em pé, em um trabalho que não te agrega, esperando ansiosamente para voltar para casa, dormir, e acordar mais uma vez no outro dia, até o final de semana chegar. Essa parada de vida te faz viver no automático, com movimentos tão iguais aos do dia anterior que você nem sente mais. E nessa falta do sentir, a gente naturaliza o “não estou vivendo, apenas existindo”. Apenas existindo. É isso mesmo. A rotina inconsciente consome o sentimento de vida. Qual foi a última vez que você fez algo pela primeira vez? Algo que acendeu aquela chama dentro de si mesma?



Estou lendo um livro chamado “Como ser leve em um mundo pesado”, do Fernando Rocha. Em um momento do livro ele diz o quanto é confortável o lugar de vítima, de dar desculpas e de não tomar iniciativa, de não mudar aquilo que se pode e quer mudar, aquilo que depende de nós. Isso me fez pensar até no meu próprio relacionamento com todos ao meu redor. Na área romântica, eu e a pessoa que estou sempre mandamos vídeos no Instagram ou algo do Pinterest que queremos fazer, mas esses desejos se perdem na rotina de trabalho, estudo e estágio, colocando nosso relacionamento nessa parada que já nos encontramos individualmente. No âmbito familiar e social, eu sempre prometo a mim mesma, a minha mãe e amigos que irei ter momentos com eles, momentos que nunca são marcados ou que, quando sim, são descartados de última hora. Recentemente, inclusive, minha mãe disse estar sentindo saudades de mim, mas detalhe: eu moro com ela e, na grande maioria das vezes, estou em casa. Entretanto, os momentos que antes tínhamos agora foram consumidos pelo meu eu trancada no quarto apenas existindo. Até na saúde, nos hobbies, na profissão, tudo eu deixo para um dia que nunca chega, simplesmente porque, na minha cabeça, há muito cansaço em mim.


Sendo bem sincera, há muito cansaço em mim, mas na grande maioria das vezes posso notar que estou cansada da rotina, cansada de estar cansada, de não fazer nada que compactue com quem eu quero ser e o que eu quero fazer. Cansada de não escrever porque acabei de fazer um trabalho de faculdade e não quero fazer mais nada. Estou cansada desse nada que vem tão instintivo em mim que consome a coragem de achar um propósito, uma missão ou simplesmente de colocar um sonho em prática. Eu tenho medo desse nada, que é quase aconchegante, está dentro da minha zona de conforto. Mas se é com ele que a vida passa, no final não sobra nada, não tenho nada.


Se nos deixarmos parados, achando que o tempo parará junto, estaremos fadados a esse marasmo, a esse sentimento de espera pela vida correta. Os sonhos deveriam se tornar metas e conquistas. Mas enquanto deixamos de sentir cada dia, de se olhar, de passar amor à família, de rever amigos, de deixar o relacionamento amoroso mais íntimo e evoluído, deixamos também de viver, de conhecer novas experiências, de cuidar das nossas relações, e tudo isso se torna estranho, distante de nós mesmos e dos outros. Ficamos parados até que a vida nos separe.

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