Eu sou esquecível?

Atualizado: 13 de out. de 2021

Passei muito tempo da minha vida calada, muitas vezes por ansiedade ou por medo de falar algo que não fosse aceito. Embora grande parte dessa minha falta de comunicação viesse dessas coisas, o meu silêncio em si também vem da minha essência. A parte antissocial que era ruim e desgastante para a minha vida está desaparecendo aos poucos, mas ainda existe o eu. E eu não sou a pessoa comunicativa e extrovertida ao extremo que vai chegar a um lugar e se destacar, falando com todos. Eu sou a pessoa que vai conversar e até falar algumas frases inteligentes, mas que em algum momento vai adorar apenas escutar ou observar o mundo ao redor. E isso, em teoria, é algo simples e tranquilo. Ser mais quieta, calma, aparentemente só deveria ser uma característica diferente de alguém muito falante. Entretanto, se chegar ao fundo da questão, muitas vezes isso não apenas me diferencia, mas me apaga.


Essa situação é tão enraizada que, pasmem, até para eventos de família já se esqueceram de me convidar. E é tão fácil colocar a culpa em mim nesses momentos. É tão mais fácil pensar que por eu ser introvertida, eles acabam esquecendo. E não é culpa deles, sabe? Porque é difícil lembrar de alguém que não fala demais, né? Errado. Errado porque quando eu olho os meus amigos ou outra parte da minha família, eu sinto que eles jamais me esqueceriam. Errado porque quando eu sou lembrada, é pelas milhões de características que eu tenho que, simplesmente, me fazem ser eu. E eu, assim como você, não deveria ser esquecível por aquilo que constrói a nossa essência.


Sabe, é tão fácil a gente gostar da pessoa extrovertida. É tão fácil a gente ver a fala como a melhor das comunicações. O problema disso é que acabamos nos esquecendo que ela não é a única. Para conhecer uma pessoa, às vezes, nem precisa falar. Se você observar as atitudes, o olhar, os gestos, você se conecta com alguém sem ouvir nada vindo dela. E isso não significa que essa pessoa não tem voz. A voz é muito mais do que várias palavras faladas. Minha voz está aqui, na escrita que você está lendo sem ouvir nada, mas já consegue conhecer um pouco de mim. Minha voz, por assim dizer, é maior do que a minha fala.



Mas, frequentemente, eu desejo ser mais extrovertida. Me transformar naquilo que não sou. Por que já que hipervalorizam a fala, eu preciso que me escutem, preciso ser ouvida. Quem sabe assim não sou esquecida. Entretanto, isso é, na mais simples das conclusões, cruel comigo mesma. Me mudar, me moldar, não para evoluir, mas para me encaixar. É muito mais do que autossabotagem, é um desespero desmedido em busca de caber em um lugar quadrado quando se é um círculo.


Então, me diga você, eu e milhares de outras pessoas, por escolhermos o silêncio da fala e reproduzirmos nossa voz de outras maneiras, devemos mudar? O que nós somos? Somos esquecíveis por sermos esquecidas?

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